Chico Xavier - Uma Vida Dedicada ao Amor

Alex Alprim e Gilberto Schoereder

Poucas figuras na história recente do Brasil conseguiram despertar tanta atenção e tanto amor quanto Chico Xavier. Sua passagem para o mundo espiritual marcou o final de uma era marcada por mensagens de solidariedade, compreensão e de amor incondicional ao próximo.

Várias histórias a respeito de Chico Xavier diziam que ele havia afirmado que deixaria a existência terrena num dia em que todo o povo brasileiro estivesse vivendo uma imensa alegria. E foi exatamente isso que ocorreu. Chico Xavier retornou ao mundo espiritual no dia 30 de junho de 2002, o mesmo domingo em que a seleção brasileira de futebol conquistava o pentacampeonato e enlouquecia o país.

Seu filho adotivo, Eurípedes Humberto Higino dos Reis, encontrou seu corpo por volta das 19h30, em seu quarto. O médico confirmou o passamento devido a uma parada cardíaca. Aos 92 anos, Chico retornava aos planos superiores da existência, deixando muitas lembranças e lições de vida. O que se viu nos dias seguintes foi uma procissão de milhares de pessoas que se dirigiram a Minas Gerais para dar o último adeus àquele que foi uma fonte de inspiração, de amor e de desprendimento pelas coisas materiais da vida como poucas vezes se viu no Brasil.

Num mundo em que tantos vivem se perguntando como é possível agir para melhorar as condições de vida e os relacionamentos entre as pessoas, a passagem de Chico Xavier foi como um farol, indicando possíveis caminhos, possíveis atitudes, ainda que nem todos tenham a força de espírito necessária para chegar tão longe, para se empenhar tão a fundo e com tanto amor pelo próximo. Chico continuava a cumprir a missão que lhe foi confiada, apesar da saúde extremamente debilitada e da idade avançada, sem se preocupar com recompensas ou com o estrelato, algo que, infelizmente, parece orientar tantos caminhos nos dias de hoje.

No entanto, seus esforços certamente renderam frutos, e uma das provas disso é o amor que lhe é dedicado por milhões de pessoas, independentemente da condição social: ricos e poderosos procuraram alívio em Chico Xavier, tanto quanto pobres e humildes. As mensagens transmitidas por ele ofereciam uma visão mais ampla e profunda da vida, de modo que as pessoas podiam ter a percepção bem clara de que tudo em nossa existência poderia fluir de forma mais harmônica se o ódio fosse superado, e se cada um conseguisse entender que a passagem pela Terra é apenas uma pequena parte de um todo maior, mais amplo e mais significativo.

Vida de Amor

O trabalho que Chico Xavier desenvolveu em sua estada no mundo material ultrapassa quaisquer dimensões, pois sua força estava calcada em uma profunda humildade e compreensão das energias superiores dos homens e do mundo espiritual, e como elas podem modificar nosso ambiente e nosso interior, desde que as pessoas permitam essa modificação.

O seu trabalho como médium psicográfico foi marcante, e pode ser visto como uma obra que se estende além das fronteiras do Espiritismo, atingindo todos aqueles que estudam e trabalham com a espiritualidade, indo além dos dogmas e das ideologias.

Nascido em 1910, desde cedo, esteve envolvido em eventos que prenunciavam o seu futuro, como o que ocorreu quando ainda era criança. Ao voltar de uma missa com a família, ouviu o pai comentar sobre um aborto que teria ocorrido na região. Ele, então, pôs-se a descrever em detalhes o ocorrido, assombrando as pessoas à sua volta, pois o que ele dizia estava muito além do que se esperaria de uma criança naquela idade.

Após a morte de sua mãe, ele ficou aos cuidados de uma amiga dela, d. Ritinha, a qual tinha, segundo consta, um gênio irascível. Já são conhecidas as histórias das surras que ela deu no menino Chico, que, numa demonstração de bondade, sempre dizia que ela era uma senhora boa, mas que tinha uma “necessidade” de surrá-lo.

Nessa época, ele teve o primeiro contato com a mãe, enquanto orava no quintal da casa de d. Ritinha. Isso o abalou, e ele sentiu falta da paz que tinha ao seu lado. Suplicou-lhe que o levasse junto, ao que ela consolou-o, dizendo que agüentasse os maus-tratos. Nem é preciso dizer que, ao relatar o ocorrido, tomou outra sova.

No dia seguinte, sua mãe retornou e disse que d. Ritinha era sua instrutora, de modo que ele deveria amá-la: ela o tornaria forte para as batalhas que enfrentaria. Chico Xavier chegou a dizer que, no começo, temia a madrinha em vez de estima-la, mas depois compreendeu o papel que d. Ritinha tinha em sua vida e passou a compreendê-la e não a odiá-la.

Na infância, devido aos seus contatos com o mundo espiritual e, em especial, com sua mãe, Chico Xavier foi tachado de possuído e sofreu muito por isso, tendo passado por várias provações. Não eram apenas os maus-tratos infligidos por d. Ritinha, mas também o vigário da cidade, que dizia ser ele possuído por uma “força” estranha. E, apesar de tudo, ele mantinha uma intensa calma e benevolência com as pessoas, mesmo quando elas o tornavam motivo de chacota.

Contudo, a vida de Chico Xavier teve uma reviravolta positiva quando seu pai casou-se pela segunda vez, com aquela que seria, segundo descrições, o anjo bom na vida de Chico, d. Cidália Batista. Foi ela quem insistiu para que o pai voltasse a reunir todos os filhos na mesma casa, a fim de cuidar deles. Ela tratou de todos como se fossem seus juntamente com outros seis filhos que teve desse casamento.

Sua vida escolar, que foi reiniciada quando retornou à convivência familiar, foi recheada de acontecimentos que tinham como foco os espíritos que apareciam só a ele. Isso chegou a causar-lhe certo embaraço, pois eram-lhe transmitidos textos e idéias que estavam além do que um menino de doze anos poderia entender e colocar no papel, gerando um clima de desconfiança ao seu redor.

Sua espiritualidade foi se desenvolvendo acentuadamente e, em inúmeras ocasiões, ele relatava fatos e acontecimentos referentes a pessoas que já haviam desencarnado, capacidade que lhe criou uma série de problemas. Posteriormente, recebeu o conselho de sua finada mãe para que evitasse os conflitos para não ganhar a antipatia das pessoas. Todavia, em 1927, sua vida passaria por um novo e importante momento de transformação devido ao contato de Chico com o Espiritismo.

A Doutrina Espírita

A mãe de Chico, que não aparecia para ele desde 1920, voltou a fazê-lo, mais ou mesmo na mesma época de outros dois acontecimentos importantes: sua madrasta desencarnou, e a irmã de Chico, Tiquinha, começou a sofrer uma série de perturbações que se acreditava ser fruto de um obsessor. Um casal, amigo do pai de Chico, ajudou Tiquinha, e foi nessa ocasião que o médium teve contato com mensagens mediúnicas transmitidas por sua mãe através da senhora que estava ajudando sua irmã.

Com a cura da irmã, Chico e sua família começaram a difundir os conhecimentos da doutrina e do evangelho espírita, especialmente com a fundação do Centro Espírita Luiz Gonzaga. Foi nesse período que Chico Xavier começou a demonstrar plenamente seus dons mediúnicos com a psicografia.

O primeiro livro de Chico Xavier, Parnaso de Além-Túmulo, foi lançado pela Federação Espírita Brasileira em 1932. Foi o início de uma produção literária das mais impressionantes, atingindo a marca de mais de 400 livros psicografados. As mensagens não são pessoais, de espíritos que as pessoas desejem contatar, mas sim, relativas a ensinamentos relacionados à doutrina espírita e, mais amplamente, dizem respeito ao papel do ser humano na Terra e no universo.

Ao longo de sua vida, por inúmeras vezes, Chico foi acusado de fraude ou viu seu nome envolvido em polêmicas que ele, placidamente, como sempre, ignorava, deixando que o tempo cuidasse dos boatos e maledicências. Em 1953, seu sobrinho chegou a acusá-lo de ser uma farsa como médium, o que se provou ser apenas mais uma tentativa de desacreditar um trabalho inteiramente dedicado ao amor pelo próximo.

Chico Xavier seguiu nesse ritmo até 1975, quando pediu o afastamento de suas atividades na Comunhão Espírita Cristã devido a problemas de saúde, especialmente a hipertensão e os problemas visuais.

No entanto, mesmo após o seu afastamento, Chico não só continuou com os atendimentos como psicografou centenas de livros e milhares de manuscritos, revelando uma firmeza e coerência inesgotáveis, influenciando desde os mais humildes, que buscavam palavras de consolo, até os ricos e poderosos, que ficavam impressionados pela fibra e discernimento dessa figura que, sem dúvida, já entrou para a história do pensamento religioso no Brasil.