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William BlakeDália Rosenthal e Gilberto Schoereder Místico, profundamente religioso – louco, segundo alguns –, William Blake foi um dos mais importantes artistas do século 19, elaborando textos e imagens de uma espiritualidade fora do comum, e com visões extremamente originais do nosso mundo e de mundos do além. William Blake foi um artista completo. Poeta, pintor, ilustrador, místico e revolucionário, viveu os seus setenta anos com idéias e atitudes bem à frente da sociedade inglesa da primeira metade do século 19. Ele nasceu em Londres, em 1757. Filho de um fabricante de bonés, teve uma infância pobre e nunca freqüentou a escola. Sua educação foi reforçada por seu profundo interesse pelos estudos, pelas leituras da Bíblia e pela literatura clássica, estas últimas presentes de forma muito evidente em toda a sua obra. O artista sentiu o impacto de sua primeira grande perda quando seu irmão, Robert, morreu de tuberculose com apenas vinte anos. Blake ficou muito perturbado e alguns estudiosos afirmam que, nesse momento, a dor e o sofrimento o levaram à verdadeira iniciação espiritual. O artista contava que via a alma, ou espírito, de seu irmão, e que ela o influenciava em sua arte. Na verdade, as aparições foram sempre constantes em sua vida: desde os quatro anos, ele tinha estranhas visões, e dizia conseguir conversar com elas. O misticismo que o acompanhou ao longo da vida levou-o a criar, pouco a pouco, sua própria mitologia, para descrever seus estudos e visões; ele chegou a dizer que desenvolveu seu próprio sistema de crença, chamando o Criador de Urizen, e rebatizando Jesus como Orc. Tratava-se mais de uma adaptação artística, através da qual ele se permitia exprimir seus sentimentos de forma mais elaborada e livre de dogmas. Ao mesmo tempo, desenvolvia uma pintura que ia contra o que chamava de pintura acadêmica do século 18 que representava tudo o que ele detestava na época em que estava vivendo: o racionalismo e o materialismo. O desejo de ser pintor já surgiu em sua infância. Começou a estudar desenho e, aos quatorze anos, foi discípulo do ilustrador James Basire (1730 – 1802). Mas já aos doze anos começou a se interessar pela poesia, e desenvolveu o hábito de ilustrá-las. Para isso, desenvolveu um método inédito chamado illuminated printing (impressão iluminada), na qual utilizava uma matriz de cobre para imprimir o texto e os desenhos na mesma página. Sua obra se desenvolveu a ponto dele ser considerado por muitos críticos como o maior poeta inglês e um dos pensadores mais originais de todos os tempos. Seus poemas curtos, cheios de ritmo e imagens, são colocados entre os mais perfeitos da língua inglesa. Em um de seus poemas, Blake faz uma alusão clara ao trabalho do iniciado, que deve fazer de seu centro interior um irradiador de paz, ao dizer que a sua espada não dormiria "até que ergamos Jerusalém, o Paraíso Terrestre, na terra verde da Inglaterra". Apesar da religiosidade presente em quase toda sua obra, Blake rejeitava a moral da época e a chamada "igreja institucionalizada", acreditando na "santidade da liberdade sexual", a qual via como um caminho para a beleza e a inocência. Ele também foi um grande entusiasta da Revolução Francesa, que foi um tema importante em sua obra. Blake interpretava a revolução como um acontecimento cósmico, uma libertação política dos homens, que trazia consigo um significado divino. E foi em 1789 – o ano da Revolução Francesa e da Queda da Bastilha – que surgiram suas primeiras obras-primas: The Book of Thel e Songs of Innocence.Entre 1789 e 1800, Blake trabalhou intensamente e compôs O Casamento do Céu e do Inferno (The Marriage of Heaven and Hell, 1790-93);The French Revolution (1791), America: A Prophecy (1793); O Livro de Urizen (The Book of Urizen, 1794); The Songs of Experience (1793-4); Europe: A Prophecy (1794); The Book of Los (1795) e The Four Zoas (1795-1804). Unindo todos esses trabalhos encontramos uma extraordinária mistura de visões apocalípticas com fervor político, releituras da teologia cristã e explorações psicológicas. Quando morreu, em 1827, muitos o consideravam louco. O poeta Wordsworth, por exemplo, comentou que “não há qualquer dúvida de que este pobre homem é um louco; mas há algo em sua loucura que me interessa mais do que a sanidade de Lord Byron e Walter Scott”. Como ocorre com quase todos os "loucos" e "místicos" geniais, sua obra permanece entre as mais importantes de todos os tempos, como uma tentativa de estabelecer uma relação entre nossas vidas e as demais dimensões de existência. A seguir, apresentamos alguns trabalhos de William Blake, unindo de forma única arte, poesia, mitologia e espiritualidade. O Livro de JóA série de gravuras feitas por Blake para O Livro de Jó, foi a última que ele completou. Os desenhos foram encomendados por John Linnell que, com isso, pretendia ajudar Blake financeiramente. As composições se baseiam em aquarelas produzidas originalmente entre 1805 e 1806. Os críticos viram o trabalho como um comentário metafísico, no qual ele utiliza as margens do papel para destacar seus próprios pontos de vista, incorporando imagens simbólicas de sua mitologia pessoal, misturando a elas citações e passagens de outros textos bíblicos. É uma interpretação que procura revelar uma visão poética referente ao despertar da consciência espiritual, um tema paralelo à história de Jó propriamente dita. Satã Vai às Portas do InfernoIlustração composta em 1806, para uma passagem do poema épico de John Milton, no Livro II de O Paraíso Perdido (1667). Nessa passagem, Satã (à esquerda) enfrenta a Morte, enquanto se dirige para tentar Adão e Eva. Devido à sua natureza insubstancial, a Morte é representada de forma transparente. Pecado, a filha de Satã, está ao centro, e é mostrada como um ser metade mulher, metade serpente. Albion RoseA pintura faz parte do Large Book of Designs, que Blake elaborou em 1796 para Ozias Humphrey. A figura de Albion é vista como uma personificação da Inglaterra e da própria humanidade. Na imagem, ele acaba de ser libertado das algemas do materialismo. A pintura também é conhecida pelo título Glad Day. O Julgamento de PárisInterpretação de Blake para a história mitológica da Guerra de Tróia. Trata-se de uma aquarela feita para Thomas Butts, em 1817. A lenda diz que Páris, um príncipe de Tróia, foi questionado sobre qual deusa achava a mais bela: Atena, Afrodite ou Hera. A pintura mostra o momento em que Páris entrega a maçã de ouro a Afrodite, que promete dar a ele a mulher mais linda do mundo. Páris escolhe Helena, esposa do rei Menelau, e com o seu rapto se inicia a guerra de Tróia. Na cena à esquerda, atrás de Páris, estão as tochas da discórdia. O filho de Afrodite, Eros, está voando, mas atrás dele está a Discórdia, e Hera aponta para as nuvens negras que se acumulam sobre Tróia. A Tentação e a Queda de EvaAquarela produzida em 1808, retratando outra passagem do poema de John Milton, Paraíso Perdido. Na Bíblia, Adão e Eva foram proibidos por Deus de comer a fruta da árvore do conhecimento do bem e do mal. Blake interpreta a queda do Homem da mesma forma que Milton em sua obra: Eva sucumbe à tentação e pega a fruta da boca da serpente. O céu é aberto com raios de luz, e a árvore fica coberta de espinhos. Satã Triunfando Sobre EvaPintura feita em 1795, mostra Satã pairando sobre Eva, que está sendo abraçada pela serpente. Para realizar a obra, Blake utilizou uma técnica própria com aquarela, que ele gostava devido à sua qualidade de transparência. Mais uma vez, a imagem reflete suas próprias visões e interpretações da Bíblia e da natureza humana. Nabucodonosor (1795)Tela de 1795, tido como um dos períodos mais criativos de Blake. Nabucodonosor reinou a Babilônia de 605 a 562 a.C., destruindo Jerusalém em 586, e capturando Tiro em 573 a.C. Sua história é vista como uma das várias interpretações alegóricas e moralizantes do Livro de Daniel, escrito no século 2 a.C. Daniel, que, na corte do rei, era conhecido como Baltassar, foi chamado para interpretar um sonho de Nabucodonosor, e lhe disse para reparar seus pecados com obras de justiça e misericórdia com os pobres. Como o rei não deu ouvidos à interpretação, o poder de Deus fez com que ele se transformasse numa espécie de animal. A obra de Blake mostra exatamente esse momento após a transformação. O Livro de UrizenPintura de 1794. O Livro de Urizen é considerado uma espécie de versão de Blake para o Gênese e o Êxodo da obra chamada de Bíblia do Inferno, escrito e pintado durante aquele que foi considerado seu período mais frutífero, quando ele vivia em Lambeth (1793-1800). Os livros ilustrados realizados nessa época são conhecidos como "as profecias de Lambeth", e lidam com temas como opressão, repressão e liberação, nos campos da política, religião e dinâmicas psicossexuais.
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